Existe uma crença exaustiva e silenciosa que assombra o mundo do empreendedorismo: a ideia de que a liberdade é o oposto da ordem. Desde o início de nossas jornadas, somos frequentemente levados a acreditar que processos, manuais e padrões são ferramentas de aprisionamento. Que eles matam a criatividade, engessam a inovação e transformam empresas vivas em máquinas burocráticas e sem alma. Mas a verdade que se revela no dia a dia da gestão é bem diferente. A liberdade sem estrutura não é liberdade. É apenas caos.
Quando uma empresa opera sem padrões claros, o que se instala não é um ambiente de inovação constante, mas um estado de urgência crônica. Para o líder, isso se traduz em uma rotina de apagar incêndios. É a equipe que paralisa diante de uma decisão simples, aguardando o aval do dono. É a sobrecarga de quem tenta abraçar o mundo e termina o dia com a sensação de não ter construído nada de concreto. Se a sua operação exige a sua intervenção ininterrupta para não colapsar, você não construiu um negócio; você construiu uma engrenagem onde o seu tempo é a peça de sacrifício.
Precisamos mudar a nossa relação com os processos. Um bom sistema operacional não é uma jaula. É um organismo que respira.
O Ego Operacional e a Síndrome do Herói
Para construirmos sistemas que libertam, o primeiro passo não é abrir uma planilha ou mapear um fluxo de trabalho. O primeiro passo é olhar para dentro e confrontar uma verdade incômoda: muitas vezes, nós resistimos aos processos porque, no fundo, gostamos de ser necessários.
Existe uma armadilha psicológica na liderança que chamo de “Ego Operacional”. Ser a única pessoa capaz de resolver um problema complexo na empresa, ser o salvador da pátria no fim do mês, afaga o nosso ego. Mas essa “Síndrome do Herói” tem um custo altíssimo. Ela drena a nossa energia vital.
Na tradição da filosofia Yorubá, compreendemos que o nosso Axé, a energia dinâmica que faz as coisas acontecerem, não é infinito. Ele precisa ser canalizado com sabedoria. Quando você gasta o seu Axé tomando micro-decisões operacionais que poderiam estar documentadas, você esvazia a sua capacidade de enxergar o futuro. A sua mente, que deveria estar focada na estratégia e na visão de longo prazo, fica nublada pela fumaça dos incêndios diários. O herói operacional é, quase sempre, um estrategista exausto.
Arquitetura de Confiança: O que realmente é um processo
Processos não são sobre controle rígido; são sobre acordos de confiança. Quando estruturamos as operações, seja mapeando o atendimento ao cliente, definindo as regras de um acordo de acionistas ou estabelecendo o formato de uma entrega técnica, estamos tirando o peso da expectativa invisível.
Spinoza nos ensina que a alegria e a potência de agir nascem dos “bons encontros”, ou seja, de relações onde as naturezas se compõem e se fortalecem, em vez de se destruírem. Uma empresa sem processos é um terreno fértil para “maus encontros”. É o funcionário frustrado porque não sabe o que esperam dele; é o líder irritado porque a tarefa não foi feita como ele imaginou (mas nunca explicou).
Criar um padrão é desenhar o mapa desse bom encontro. É dizer à equipe: “Este é o nosso jeito de caminhar. Aqui está o chão seguro.” A partir dessa segurança, a criatividade real pode florescer. A inovação não nasce do desespero; ela nasce da estabilidade. Quando a base está garantida, a equipe tem confiança para propor o novo.
O Estoicismo Aplicado à Operação
Construir essa infraestrutura exige uma disciplina quase estóica. O princípio fundamental do Estoicismo é a dicotomia do controle: saber separar com clareza aquilo que está em nosso poder daquilo que não está.
O mercado, as crises econômicas, a mudança de humor do consumidor, tudo isso é incontrolável e imprevisível. O que está sob nosso controle? A forma como atendemos, a qualidade da nossa entrega, o fluxo de caixa, a rotina de vendas. Quando nós não padronizamos o que é controlável, permitimos que o imprevisível invada a nossa empresa todos os dias.
Sistemas que respiram são aqueles que automatizam e padronizam as respostas aos problemas repetitivos. Eles absorvem o impacto do dia a dia. Se um erro acontece uma vez, é um acidente. Se ele acontece três vezes da mesma forma, é uma falha de sistema. A liderança essencial atua na correção do sistema, não na punição do acidente.
O Ritmo do Longo Prazo
No esporte de endurance, há uma máxima inegociável: você não vence uma prova longa dando sprints desordenados. O que te leva até a linha de chegada de um triatlo não é a explosão muscular, mas a consistência da sua frequência cardíaca, a precisão das suas transições, a sua estratégia de nutrição. Tudo isso é processo. Tudo isso é sistema.
A sua empresa é uma prova de longa distância. Se você lidera através da urgência, está dando sprints em uma maratona. Vai faltar oxigênio.
O padrão é o que estabelece o seu ritmo de cruzeiro. Quando você documenta, treina e confia no sistema, você para de correr atrás do próprio rabo e começa a caminhar com intenção. Você devolve a autonomia para a sua equipe e, em troca, recebe o ativo mais valioso que um líder pode ter.
Você ganha o direito ao silêncio. O espaço mental inviolável para pensar, para estudar, para criar e para, de fato, empreender o que é essencial. O padrão nunca foi uma jaula. O padrão é, e sempre será, o que te liberta.