Existe uma frase do filósofo Lao Tzu que, por muito tempo, me pareceu apenas poesia, e não estratégia: “A natureza não tem pressa, e contudo tudo se realiza”.
Isso não significa ficar parado. A natureza está em constante movimento. Rios correm, ventos sopram, animais caçam. O ponto é que existe uma diferença vital entre movimento e desespero.
Quem me acompanha no triatlo sabe que, para ir longe, é preciso correr. Mas correr no ritmo errado é a garantia de que você não vai cruzar a linha de chegada.
No ambiente corporativo, fomos treinados para acreditar no oposto. Aprendemos que a velocidade máxima é a única vantagem competitiva. Que se você não crescer 10x ao ano, você está morrendo. Que o descanso é falha de caráter.
O resultado dessa mentalidade é visível: fundadores exaustos, equipes ansiosas e empresas que, embora faturem alto, possuem a fragilidade de um castelo de cartas.
Nos últimos anos, liderando a Austral e a 4Medic, e agora estruturando o método Empreenda o Essencial, percebi que existe uma diferença biológica fundamental entre inchar e crescer.
Muitas empresas não estão crescendo; estão apenas inchando. E entender essa diferença é o que separa os negócios que duram daqueles que quebram no km 30.
O mito da Máquina vs. A realidade do Organismo
O erro primário da gestão tradicional é tratar a empresa como uma máquina.
Numa máquina, você pode dobrar a velocidade apertando um botão. Se uma peça quebra, você troca. A máquina não precisa de sono, de cultura ou de sentido. Ela só precisa de energia.
Mas a sua empresa não é uma máquina. Ela é um organismo vivo. Ela é feita de gente, de relações, de fluxos nervosos (comunicação) e de sangue (caixa).
Na biologia, nada cresce em “tiro curto” o tempo todo. O único organismo que tenta crescer desordenadamente e sem pausas tem um nome clínico: câncer.
Sistemas vivos saudáveis operam em ciclos. Existe o tempo de expandir a copa (vendas). Existe o tempo de aprofundar a raiz (processos). Existe o inverno, onde as folhas caem para economizar energia (revisão de custos e estratégia).
Querer que a sua empresa viva num “verão eterno” de vendas recordes, sem nunca parar para organizar a casa, é uma luta contra a natureza. E a natureza sempre ganha.
Chronos vs. Kairós: Encontrando o seu Ritmo
Para sair da armadilha da pressa, precisamos mudar a nossa relação com o tempo.
Os gregos tinham duas palavras para tempo: Chronos e Kairós.
- Chronos é o tempo do relógio. O prazo. A notificação do celular. O tempo que nos devora. É o tempo da ansiedade.
- Kairós é o tempo da oportunidade. O “momento certo”. É o tempo de maturação de um vinho ou de uma ideia. É o timing perfeito.
Uma gestão essencial não ignora o relógio (precisamos de prazos), mas ela sabe respeitar o Kairós.
Lançar um produto antes de ele estar maduro é desperdício. Promover um líder antes de ele estar pronto é crueldade. Forçar o crescimento do faturamento sem ter estrutura de entrega é suicídio.
O segredo não é ser lento. Lentidão é ineficiência. O segredo é ter Ritmo.
Ritmo é a velocidade sustentável. É a Zona 2 do atleta de elite. É a capacidade de manter a constância sem quebrar.
Plantação de Eucalipto ou Mata Atlântica?
Para ilustrar a estrutura necessária para esse ritmo, gosto de pensar na analogia dos ecossistemas.
Você pode criar uma Plantação de Eucalipto. É aquele modelo que cresce rápido, reto, uniforme. Em 5 ou 7 anos, você tem uma “floresta” pronta para o corte. O retorno é rápido e visível. Porém, é uma monocultura. O solo ao redor costuma secar. Se uma praga ataca, derruba tudo, porque não há diversidade para proteger o sistema.
Ou você pode cultivar uma Mata Atlântica. O crescimento é mais complexo e diverso. Existem várias espécies convivendo. Uma planta faz sombra para a outra, as raízes se entrelaçam e seguram a terra. Esse ecossistema retém água, gera vida e cria um microclima próprio. É resiliente. Atravessa secas e tempestades porque não depende de uma única via de sustento.
O mercado digital, muitas vezes, nos vende a ideia do Eucalipto (o “hack” de crescimento rápido) prometendo a solidez da Mata Atlântica. Essa conta não fecha.
Se você quer correr a maratona do mercado, precisa da resiliência de um ecossistema diverso, não da fragilidade de uma monocultura.
3 Sinais de que sua empresa perdeu o ritmo
Como saber se você está construindo uma floresta ou apenas correndo numa esteira até a exaustão? Observe estes três sintomas:
- O Caixa Montanha-Russa: Sua receita não tem previsibilidade. Você vive de picos de venda seguidos de vales de desespero. Isso é arritmia.
- A Centralização Tóxica: Se você sair de férias por 15 dias, o negócio para ou regride? Se sim, a empresa não tem vida própria; ela é apenas uma extensão do seu CPF.
- A Exaustão como Medalha: Se a cultura da empresa celebra quem vira a noite trabalhando e vê com maus olhos quem sai no horário, você está cultivando ineficiência, não produtividade.
Conclusão: Ajuste o Pace
Se este texto te causou algum desconforto, ótimo. O desconforto é o primeiro sinal de que a consciência despertou.
O meu convite hoje não é para que você pare. O empreendedorismo exige movimento. O convite é para que você ajuste o pace.
Olhe para a sua agenda e para o seu planejamento estratégico. Você está correndo uma maratona com o fôlego de um tiro de 100 metros?
Encontre o seu ritmo. Respire. Porque quem corre com estratégia chega inteiro. Quem corre com pressa, quebra no meio do caminho.